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E NAS BOCAS… MORTE AOS GAYS

Written by lizbittar on dezembro 9, 2009 under E as Bocas.


Não sou nem pró, nem contra, muito pelo contrário. Em cima do muro, eu? Não, nada disso. Não defendo nem condeno porque não são melhores, nem piores. Há bons, maus, decentes, indecentes, leais, corruptos. Iguais a nós, iguaizinhos. Há quem diga que para eles não há salvação. Mas quem divide a raça humana em categorias, ainda não entendeu que temos todos, indistintamente, um ponto em comum: somos todos miseráveis.



MORTE AOS GAYS



Acabo de assistir a uma entrevista realizada ontem por Rachel Maddow com Richard Cohen, fundador da “International Healing Foundation” (Fundação Internacional de Cura) que se propõe a reverter a homossexualidade através de terapia. A Fundação existe há mais de 20 anos, e alega ter ajudado milhares de pessoas nos EUA e em todo o mundo, no processo de reversão da homossexualidade. A entrevista está abaixo, em inglês, lamentavelmente sem legendas (Ainda! Talvez alguém se anime…)


Em poucos minutos de entrevista, é possível perceber que Richard Cohen é dotado de enorme carisma, potencializado pelo discurso visivelmente construído a minúcias para passar uma imagem conciliatória e ponderada, muito adequada a quem se apresenta como “psicoterapeuta profissional”. Ele utiliza um jargão muito específico, evitando palavras como “gay” (para não soar preconceituoso) e “homossexualidade”, termo que substitui por “SSA”, sigla de Same Sex Attraction (atração pelo mesmo sexo).


Os motivos que o levam a adotar esta postura não são meramente comerciais. Minha intuição me diz que uma qualificada equipe de marketeiros e advogados está por trás da construção do personagem que – mesmo pronunciando barbaridades – soa bem, e vende bem. Alguns exemplos: ele não utiliza o termo “tratamento” porque não é licenciado como médico e não pode fornecer nenhum tipo de tratamento. Mas o termo “tratamento” também é inadequado porque não há estudos científicos que apontem o homossexualismo como doença, passível, portanto, de tratamento. Ele fala, então, em “terapia”, “ajuda” ou ainda “aconselhamento”.


Também não utiliza o termo “cure”, que implica em cura de doenças – o que não é o caso, como já vimos. Ele aplica o termo “healing” também traduzido em português por “cura”, mas que tem uma abrangência maior, significando “sanar”, “sarar”, “aliviar” ou ainda “melhorar”, e não implica, necessariamente, em “cura médica” ou em “cura” de alguma doença. Fala-se, por exemplo, em “spiritual healing” que poderia ser traduzido por “cura espiritual”, mas que tem uma conotação de “alívio” ou ainda “libertação”. É neste sentido que o termo “healing” é utilizado no processo de “alívio” ou “libertação” da SSA (atração pelo mesmo sexo). Assim, ele consegue vender o seu peixe, com os devidos cuidados para não passar da posição de terapeuta, para a condição de réu.


Pregando o amor e a salvação, sempre com um sorriso nos lábios, o “ex-homossexual” Richard Cohen (casado há 20 anos, com 3 filhos) utiliza sua própria história de vida como pedra angular de sua Fundação, e também como suas credenciais, pois ainda que se apresente como psicoterapeuta, está longe de ser autoridade – ou mesmo reconhecido – nos meios científicos e acadêmicos: não é psicólogo nem psiquiatra, mas “terapeuta” não licenciado, tendo sido expulso da Associação Americana de Terapeutas por questões éticas de origem financeira (e não por ser anti-gay). Também não é membro de nenhuma associação ou organização médica nos Estados Unidos. Ainda assim, em muitos estados americanos é permitida a prática da terapia por pessoas não licenciadas, como no caso de profissionais que lidam com viciados e alcólatras, ou pastores, padres, ministros e rabinos que trabalhem com terapia de casais, apenas para citar dois exemplos.


Não sou pró gay, nem anti gay, não milito em nenhum movimento, e não pertenço a nenhuma organização religiosa que apóie ou incentive, ou que condene ou classifique a orientação sexual como pré-condição à salvação. Como disse no início, este artigo não é contra, nem a favor, muito pelo contrário. O que me chamou a atenção, e me levou a escrevê-lo, são as implicações das alegações e de práticas como as defendidas pelo terapeuta (não-credenciado) Richard Cohen.


Embora seja enfático ao afirmar que o seu trabalho e restrinja à “ajuda nos processos de reversão da SSA”, sua atuação e esfera de influência vão muito além. Em Março deste ano mandou um representante, Caleb Lee Brundidge a Uganda para discursar no Parlamento, levando a mensagem defendida por ele e propagada em seus livros: “Homossexualismo pode ser revertido, por se tratar de uma escolha pessoal.


O também ex-gay Caleb, que atua na Fundação de Cohen como “Coach de Reorientação Sexual” participou, em Uganda, da Conferência Anti-Gay, organizada por Stephen Langa, diretor executivo da Family Life Network, uma ONG fundada em 2002 para “trabalhar pela restauração dos valores morais e da família na sociedade ugandense”.


Um mês depois, Stephen Langa apresentava um projeto de lei que prevê pena de morte aos gays , além de penas de até 7 anos de prisão a amigos e familiares que não informem às autoridades a existência de gays, e penas até mesmo a proprietários de imóveis por alugarem moradia aos gays. (1938? Não, estamos em 2009, quase 2010).


O projeto ainda está tramitando em Uganda, onde a pena de morte já existe para homossexuais ativos que tenham o vírus HIV, sob a justificativa de ser medida de contenção da doença no país.


Teorias como as defendidas por Richard Cohen são a base de extremistas irracionais (desculpem a redundância) como Stephen Langa. Em seu livro “Coming Out Straight, Understanding and Healing Homosexuality ” (ou, numa tradução livre, Revelando-se Heterossexual, Compreendendo e Tratando a Homossexualidade), Richard Cohen traz dados aterradores: “A probabilidade de que homossexuais venham a abusar de menores é 12 vezes maior do que nos casos de heterossexuais. A probabilidade de que um professor homossexual abuse de um aluno é 7 vezes maior do que entre os heterossexuais e 40% dos casos de abuso sexual são perpetrados por pessoas envolvidas com práticas homossexuais”.


Os dados me chamaram a atenção, pois em recente pesquisa que fiz sobre o incesto no Brasil, publicada no artigo “Teve sexo consensual com o próprio pai por dez anos”, os dados que levantei apontam em outra direção: “Na expressiva maioria, 90% dos delitos são cometidos por homens que as vítimas amavam, respeitavam e confiavam: 69,6% dos agressores é o pai biológico; 29,8% o padrasto e 0,6% o pai adotivo. Não há registro de abuso por parte de pais homossexuais.” (fonte: “A Justiça e a Invisibilidade do Incesto”, da Dra. Maria Berenice Dias, Desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul).


Os alarmantes dados estatísticos apresentados por Richard Cohen também chamaram a atenção de Rachel Maddow, mas quando questionado sobre suas fontes, Cohen limitou-se a responder que, “na próxima edição do livro, estes dados serão retirados.”


Não tendo nenhum estudo sério e nenhuma fonte científica reconhecidamente confiável para abalizar suas teorias, Cohen, sem perder a fleuma e seu inalterável sorriso, diz que não disse o que disse, e depois desdiz. Fica o dito pelo não dito, ou melhor, o escrito pelo “retiro o que eu disse”. Depois do estrago feito.


Um homem cujos critérios são assim tão – digamos – “maleáveis” segundo as circunstâncias, merece alguma credibilidade?


Na verdade, a fonte de tais dados é Paul Cameron, reconhecido ativista anti-gay, que foi expulso da Associação Americana de Psicologia depois de forjar dados como os acima, tendo sua licença cassada desde 1995. Também não é sociólogo, e a Associação Americana de Sociologia formalmente condena suas interpretações tendenciosas sobre estudos sociológicos acerca da sexualidade, assim como a Associação Canadense de Psicologia. Mas é em pessoas com a reputação de Cameron que Cohen se baseia para difundir estatísticas em seus livros.


No livro “Filhos Gays, Pais Heterossexuais”, Cohen afirma que “dentre as razões que podem suscitar inclinações homossexuais em crianças estão: divórcio, morte de pai ou mãe, adoção, religião e raça.” (Neste ponto, parei o vídeo para me refazer do choque, e também concedo a você, leitor, uma breve pausa para se recompor…)


Embora Rachel Maddow tenha sido bastante incisiva ao questionar, repetidas vezes, como a raça pode ter qualquer influência sobre a homossexualidade, Cohen, mais uma vez, disse que não tinha escrito o que escreveu e desdisse o que havia dito. Ao final, pressionado pela insistente pergunta: “Como a raça transforma alguém em homossexual?” ele acabou respondendo: “Não transforma”.


Ainda assim, a afirmação continua lá, impressa. E perigosamente disseminada por livros, CDs, ONGs, palestras, websites e associações em todo o mundo, servindo como fonte inspiradora para cegos condutores de cegos, fanáticos religiosos e perigosos líderes como Langa.


Sei que o tema é polêmico e pode suscitar debates sob várias óticas, predominantemente a religiosa, sem falar a dos militantes de direitos humanos e movimentos GLS.


Muito embora eu não fale em nome de nenhuma das categorias acima, não posso me calar ao ver que ainda se prega, nos dias de hoje, (muitas vezes lamentavelmente em nome da religião), a dissidência, a segregação, a discórdia, a intolerância, o desrespeito às diferenças, a violência, o ódio e o extermínio.


Também não posso me calar como cidadã, ao ver que ainda há pessoas que, por mais esclarecidas que sejam, não atentem para as entrelinhas das mensagens cuidadosamente esculpidas para plantar idéias perversas, que se alastram qual erva daninha, levando à desunião do homem e ao retrocesso da humanidade.


Enquanto não enxergarmos todos os seres como nossos irmãos, e continuarmos a classificá-los por raça, cor, credo, etnia, orientação sexual ou classe social, estaremos muito distantes do ideal de fraternidade na Terra.


Lamentavelmente, os moralistas de plantão, ou os que defendem a divisão entre os homens, em nome de convicções religiosas, ainda não entenderam a essência dos ensinamentos cristãos:



“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;

Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.


Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo. Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta.


Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa.


Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus.


Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis.”


Por Liz Bittar em 09/12/2009

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por  Liz Bittar
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