BUSCANDO A CRISTO
Written by lizbittar on dezembro 20, 2009 under E as Bocas.
Eu sempre me lembro dele, na época de Natal. Contestador, polêmico, inquieto. Pagava pra entrar numa boa briga – êta cabra arretado!
Como costumam dizer, ele não nasceu: estreou. Irreverente, satírico, boêmio, subversivo, inconformado. Queria mudar o mundo – e com a língua afiada que tinha, fez um barulhinho bom.
Viveu à frente de seu tempo, e sua crítica mordaz concentrava-se na hipocrosia dos costumes de então, não poupando a classe política e, especialmente, o Clero.
Mas não foi compreendido.
Refiro-me a Gregório de Matos, cuja sátira ferina lhe rendeu a alcunha de “Boca do Inferno” – mas hoje é considerado o maior poeta barroco da língua portuguesa.
Enganam-se os que o acusam de profano. Satirizava a Igreja, a quem não poupou críticas nem mesmo no leito de morte, quando, ao lado de dois padres, disse morrer como Jesus Cristo, entre dois ladrões.
Mas, também, às portas da morte, escreve “Meu Deus, que estais pendente em um madeiro“. Sua fé também é expressada em outros belíssimos poemas sacros como “A Nosso Senhor Jesus Cristo com Atos de Arrependido e Suspiros de Amor” e “Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado”
Nesta época de Natal, meu poema favorito da obra de Gregório de Matos, “Buscando a Cristo”, me traz sintonia e proximidade com o que representa o Natal. Muito além das festas, da comilança, da troca de presentes, este poema me traz de volta ao motivo da celebração: o Aniversariante. Como viveu, porque viveu, como morreu, porque morreu, e o seu Legado.
Por ter sido escrito por um poeta de vida devassa, crítico severo da religião reinante, também me lembra que Cristo não esteve entre nós para servir a uma ou outra religião. Ele veio para todos. A comunhão com Ele começa no coração; a fé pode ser expressa em rituais, ou em reclusas orações. Mas o verdadeiro cristão se reconhece pelas obras. E analisando nossas obras, individualmente, podemos avaliar se estamos ou não nos distanciando d’Ele, e de tudo o que Ele veio nos ensinar.
Lhes ofereço, então, este lindo soneto de Gregório de Matos, não apenas como um momento de extrema beleza, mas propondo, também, uma reflexão.
BUSCANDO A CRISTO
À vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.
A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.
A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p’ra chamar-me
A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.Gregório de Matos
1633 – 1696

As ilustrações são de outro artista barroco, Aleijadinho (1730-1814), da série Passos, composta por 66 estátuas em madeira, entre 1796 e 1799. A série representa sete episódios, distribuídos em seis capelas consagradas respectivamente à Ceia, ao Monte das Oliveiras, à prisão, à flagelação e à coroação de espinhos, à Cristo carregando a cruz e à crucificação.
Por Liz Bittar, em 18 de Dezembro de 2009
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