E NAS BOCAS… “É TUDO VERDADE”
Written by lizbittar on outubro 26, 2009 under E as Bocas.
A singela trovinha foi baseada em uma história real. Me disseram que é tudo verdade!
Relata não apenas a perspicácia de um menino traquina, de cinco anos de idade. Mais do que isso, é o retrato de como é preciso aprender, desde cedo, a lidar com as diferenças – especialmente quando o diferente é você!
Vejam só o que passa por uma cabecinha tão novinha…
Já faz tempo que o menino
Sabe de toda a verdade,
Da sua adoção, pequenino
Com muita naturalidade
Nunca teve pai postiço
E nem também natural
Achava, porém, tudo isso
Coisa muito normal
Foi na escola que aprendeu
Diferença e preconceito
Mas mentir nem lhe ocorreu
Quando indagado a respeito
“Conte tudo da sua casa,
Fale também da família”
A professora indagava
E a classe toda respondia
“Moro só com minha mãe
Só nós dois e ninguém mais.”
“Você não tem nem irmã?
Diga, então, cadê seu pai?”
“Minha mãe não sabe quem é
Não sabe nem se ele é vivo
Desconfiava de um tal Zé,
Mas o teste deu negativo”
Na sua santa ingenuidade,
Sem malícia ou artifício,
Na única escola da cidade
Cometeu “sincericídio”
Um mexerico instantâneo
Seguiu-se, sem dó nem pena
É raro tamanho escândalo
Em cidade tão pequena
Foi como acender um pavio
Que explodiu em tagarelice
“Onde é que já se viu
Tamanha sem-vergonhice?!”
Restou, então ao guri
Uma ou outra opção:
Ou pecar por mentir
Ou pecar por omissão
Pra calar a toda a gente
Passou, então, a responder
“Meu pai morreu de acidente
Antes mesmo de eu nascer!”
A mãe, compreendendo a criança
Não mentiu nem desmentiu
Entendeu que era fase da infância
E fez de conta que nem viu
A mentira deslavada
Passou logo a lhe incomodar
E enquanto o povo falava
Esperava a tal fase passar
“Pobre viúva!” “Que carma!”
“Que coisa mais deprimente!”
Como toda desgraça se alastra
Com essa não foi diferente
E a mãe acabou redimida
Pelas outras, de “boa família”
E passou a ser incluída
Em todas suas romarias
Que não eram religiosas
Nem voltadas à caridade
Eram horas ociosas
De fofocas no chá da tarde
A ausência da mãe era justa
Precisava trabalhar
Era uma pobre viúva
Com filho pra sustentar
Visando aumentar o drama
O menino, muito esperto,
Encheu de detalhes a trama
E o defunto virou Roberto
Foi então adicionando
Minúcias ao ocorrido
Dia, hora, onde e quando
E como foi socorrido
Era coisa de arrepiar
Mas mentira tem perna curta
O menino esqueceu de contar
Tais detalhes à viúva
A mentira impõe castigo
Pra poder manter a farsa;
Ter um olho no próprio umbigo
E o outro, no comparsa
Foi assim que um dia ouviu
A mãe responder, constrangida,
Perguntas em tom sutil
Sobre sua história de vida.
“Pobre João!” alguém exclamou
“Pobre João, que coitado!”
“Sim, pobre João”, concordou
A viúva do morto inventado
Lá de longe o guri disparou
Que nem bala, ou touro liberto
Ofegante, remendou:
“Não é João! É… é João Roberto!!”
Me juraram de pé junto
Que isso tudo é a mais pura verdade
Enterrado já está o defunto
Mas não a hipocrisia da sociedade.
Por Liz Bittar em 26.10.2009
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