Caiu na Rede… Quem é o Peixe?

nov 27th, 2009 | By lizbittar | Category: Em Destaque

“Vamos pedir piedade, Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde

Vamos pedir piedade, Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem.”

Em 1988 Cazuza cantava o Blues da Piedade no Canecão. Escolhi esta música como trilha sonora deste post, porque os tópicos que me levaram a escrevê-lo, tratam – à primeira vista – de intolerância religiosa e racial. Mas só à primeira vista.

prayforobabmaNas últimas duas semanas, dois assuntos atingiram a liderança nas buscas do Google, em número de Tweets, além de inúmeros Diggs, posts e comentários, principalmente nos Estados Unidos: O primeiro, foi a campanha Pray for Obama (Reze por Obama) estampada em adesivos, camisetas, bichinhos de pelúcia, canecas e bottoms em todo o país, e à venda em lojas virtuais como CafePress.com e Zazzle.com

O slogan deu o que falar em websites, blogues e redes sociais. “Reze por Obama” é a chamada. O subtítulo é “Salmo 109:8

Este verso, diz: “Sejam poucos os seus dias, e outro tome o seu ofício.”

O verso seguinte, 109:9, diz: “Sejam órfãos os seus filhos, e viúva sua mulher”.

A notícia inicial era de que a campanha partira de cristãos fundamentalistas, pregando morte a Obama. Eu mesma fiquei impressionada, e pesquisei em sites e blogs no Brasil e nos EUA para apurar a história. Aqui, quase nada foi publicado. Já nos EUA a repercussão foi grande. Desde declarações absurdas que não merecem sequer menção, até aqueles que acharam que se tratava de uma brincadeira, o barulho foi tanto – felizmente, a maioria contra – que as lojas virtuais suspenderam a venda dos produtos. Não se sabe a origem da campanha, mas é óbvio que versículos e citações bíblicas, utilizados completamente fora de contexto, podem dar margem a interpretações absurdas, e debates como este podem gerar conflitos religiosos de magnitude desproporcional.

Ainda assim, uma ação isolada como esta campanha, resulta mais em repulsa do que em adesão. Numa América orgulhosa de ter dado um passo à frente com a eleição do primeiro presidente negro, parece não haver espaço para o embate racial. Mas passados os meses iniciais de encantamento com o novo presidente, os Estados Unidos ainda sofrem com o desemprego, a recessão econômica, além de medidas polêmicas como a reforma no sistema de saúde, por exemplo. A popularidade de Obama vem caindo, ao mesmo tempo que a questão da etnia volta a ser explorada, especialmente por meio das mídias sociais, território livre de censura e isento de qualquer tipo de “filtro”, como é a imprensa.

A liberdade de expressão passa, então, a servir a dois senhores, a exemplo da imagem abaixo, publicada no blog “Hot Girls” (hot quem?!)

michelle-obama-google-image-search

A forma ultrajante e desrespeitosa como Michelle Obama é retratada não tardou em alcançar a liderança na busca por suas imagens no Google. Mas o Google recusou-se a retira-la dos resultados da busca, e limitou-se a colocar o aviso “Resultados de Busca Podem ser Ofensivos”. Emitiu um comunicado, explicando que «A posição de um site na classificação de resultados do Google depende fundamentalmente de algoritmos de busca, que usam milhares de fatores para calcular a relevância de uma página em relação a uma demanda particular», explicando ainda que sua maior prioridade é a «integridade dos resultados de busca», e por isso descarta «eliminar páginas dos resultados simplesmente porque o conteúdo seja impopular ou porque receba queixas».

Aparentemente, a imagem foi retirada pelo próprio blog, e o Google acabou emitindo nota desculpando-se com a primeira dama americana – depois, claro, de muito barulho.

A Casa Banca não comentou o ocorrido, e os comentários são mesmo desnecessários. Mas uma reflexão é bastante oportuna : esses “barulhos virtuais” causam tamanha repercussão na rede, que podem dar a falsa impressão de se tratarem de uma “tendência”.

A análise é superficial e muito simples: “É disso que o povo está falando”. Mas o número de tweets não indica necessariamente o pensamento ou sentimento das pessoas; os tweets costumam ser reenviados quase que de forma automática, sem muito critério ou convicção. Twiteiros não defendem causas, apenas retransmitem a informação do momento, o que parece ser o tópico do dia. O formato do Twitter é um campo fértil para a disseminação desse tipo de conteúdo: Oferece público mais do que suficiente para fazer muito barulho, com a vantagem do limite de 140 caracteres, que não permite muitas explicações. Juntando a fome com a vontade de comer, os articuladores da rede sabem muito bem como acender o pavio, e deixar que a própria rede faça o resto do trabalho.

E não é fácil resistir à tentação de aderir ao barulho, e sentir-se parte integrante do que está “acontecendo no mundo”. Especialmente no caso do Twitter, que tem como característica principal a rapidez e a facilidade de acesso e veiculação de notícias. É tudo muito ágil e instantâneo; ao toque de uma única tecla (o Retweet ) informações se propagam a centenas de milhares de usuários em escala global. A convergência digital, neste caso em particular, só piora o problema: qual twiteiro, no ônibus a caminho do trabalho, via celular, vai se preocupar em checar fontes ou veracidade de notícias antes de decidir retransmitir um tweet que se resume a uma chamada que, quanto mais bombástica e impactante, mais chances tem de atingir a lista dos dez mais?

Se não é possível deter ou mesmo controlar a propagação frenética de informações na rede, é possível, pelo menos, diminuir o barulho. Foi o que fez o Facebook, ao tomar conhecimento de uma enquete lançada no site em Setembro, perguntando se Obama deveria ser assassinado. Mais de 730 pessoas responderam antes que o Facebook retirasse a enquete do ar. Não foram divulgados nem os resultados, nem o nome do autor da enquete. Barulho devidamente contido, ninguém saiu ferido.

Sou uma entusiasta da internet e das mídias sociais, e defendo inclusive a adoção dessas ferramentas pelas escolas e universidades, para a propagação de conteúdos de qualidade e a formação de nossos jovens em competências essenciais, tais como autodesenvolvimento, gestão do conhecimento e empreendedorismo, apenas para citar algumas.

A possibilidade de criação de conteúdos e troca de informações entre usuários em todo o mundo, em tempo real é, sem dúvida, um poderoso instrumento para o aprimoramento intelectual e profissional de qualquer usuário. Mas, como vimos, estas ferramentas apresentam armadilhas imperceptíveis para os usuários mais desatentos. Com a informação se propagando em centenas de milhares de tweets e blogues, cabe ao próprio usuário o discernimento de filtrar a informação, antes de simplesmente repassar notícias seguindo “tendências” ou demonstrando estar “antenado” com o mundo virtual.

Não é novidade que empresas vasculham os perfis virtuais dos candidatos a emprego. Mas redes sociais como o LinkedIn, o Facebook ou até mesmo o Orkut não são tão boas fontes quanto o Twitter. Isto porque o perfil dos profissionais no LinkedIn é cuidadosamente preparado. No Facebook, há a possibilidade de restringir o acesso ao perfil do usuário, e mesmo no Orkut, onde os usuários estão mais expostos, há sempre a possibilidade de refletir e construir um texto ou um comentário antes de postar em qualquer comunidade, basta querer (são poucos os que se preocupam com isso, infelizmente). Mas, no Twitter, as pessoas agem por impulso,  revelando de maneira mais transparente seus reais interesses. Os tópicos em alta no Twitter são, por sua vez, replicados em outras centenas de milhares de posts e comentários na blogosfera.

A utilização das ferramentas do mundo virtual requer, portanto, uma boa dose de discernimento, o cuidado de triar as informações, tomando o tempo de buscar fontes confiáveis que as confirmem. Os blogues, aliás, não podem ser considerados fontes confiáveis, uma vez que expressam a opinião pessoal de seus autores.

Há, também, blogueiros e twiteiros que se dedicam a criar ou direcionar os “barulhos” da rede. Não se tratam apenas dos marketeiros da era digital.  Muitos estão a serviço da chamada “censura 2.0”, que é a aplicação do velho ditado “se você não pode com o inimigo, junte-se a ele”. Já que é impossível deter as informações ou mesmo o acesso ao mundo virtual, o melhor a fazer é servir-se das redes sociais para fazer barulho, desviar o foco e plantar notícias. Manipulação digital das massas, ou infiltração cibernética, como queira.

Esta é, pelo menos, a teoria do russo Evgeny Morozov, que fala sobre isso no seu blog e também na apresentação abaixo ”Como as Ditaduras se Beneficiam da Internet”. Vale a pena assistir. Legendas em inglês estão disponíveis clicando em “View Subtitles”.

Antes, porém, um lembrete: quem quer que esteja utilizando as mídias sociais para procurar emprego ou clientes, e fazer um network profissional, deve atentar para seu comportamento na rede; o que dissemina, e como. Já, quem defende causas (nada contra), deve se dar ao trabalho de, pelo menos, averiguar sua procedência. O mesmo vale para a disseminação de emails com informações falsas a respeito de isenção de impostos, cancelamento de multas, e tantas outras besteiras que existem por aí.

Não é de hoje que circulam na internet informações falsas, sobre todo e qualquer assunto, com os mais diversos propósitos. Mas, ao repassar impensadamente um email a todos os seus contatos, com informação falsa, servindo de instrumento para a propagação de absurdos que caem na rede, me diga: quem é o peixe?


por  Liz Bittar em 27.11.2009
Conteúdo liberado, desde que mencionadas a autora e a fonte (www.lizbittar.com.br/blog)
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