Gracias por tu vida
out 4th, 2009 | By lizbittar | Category: Reflexões
Morreu esta madrugada, aos 74 anos, uma das mais belas vozes latinas: Mercedes Soza, ou La Negra, como é conhecida na Argentina.
Nascida na cidade de Tucumán, ela começou a carreira aos 15 anos de idade. Foi ativista política, contra a ditadura que se instalou em seu país nos anos 70, levando-a ao exílio em 1979, primeiramente em Paris, depois em Madrid.
Não havia nenhum processo formal contra Mercedes na Argentina, e ela podia, em teoria, entrar e sair livremente do país. Mas o regime lhe tirou o que tinha de mais precioso: foi impedida de cantar.
Retornou à Argentina em 1982, pouco antes da Guerra das Malvinas. Na década de 80, gravou canções memorávies com Miltom Nascimento, Fagner, Beth Carvalho, dentre outros.
Gravou e apresentou-se com frequência com músicos de toda América Latina, e popularizou as lindas canções da chilena Violeta Parra.
Inseri neste post 4 vídeos, com letra e tradução – os poemas são belíssimos!
Gracias a la Vida, de Violeta Parra, é a primeira, seguida de Volver a los 17, com Miltom Nascimento, depois Las Manos de Mi Madre, um lindo poema de Peteco Carabajal, “Como Pajaros en el Aire” , e por último, “Años”, que gravou com Fagner. Resolvi traduzir todas as letras, para que vocês possam acompanhar não só a beleza da voz, mas também das palavras.
Nos comentários, abaixo, vocês podem voltar no tempo e ver reunidos Chico, Gal, Caetano, Miltom e Mercedes Soza, cantando “Volver a los 17″
Obrigado à vida que tem me dado tanto
me deu duas estrelas, que quando as abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto do céu, seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
Obrigado à vida que tem me dado tanto
me deu o som e o abecedário,
com ele as palavras que penso e declaro
mãe, amigo, irmão e luz
iluminando a rota da alma de quem estou amando.
Obrigado à vida que tem me dado tanto
me deu a marcha dos meus pés cansados
com eles andei praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
Obrigado à vida que tem me dado tanto
me deu o coração que agita sua moldura
quando vejo o fruto do cérebro humano
quando vejo o bem tão longe do mau
quando vejo o fundo dos teus olhos claros.
…….
Obrigado à vida que tem me dado tanto
me deu o riso e me deu o pranto
assim eu distingo felicidade de tristezas,
os dois materiais que formam meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto.
Voltar aos dezessete, depois de viver um século
É como decifrar os signos, sem ser sábio ou competente
Voltar a ser, de repente, tão frágil como um segundo
Voltar a sentir profundamente, como uma criança frente a Deus
Isso é o que eu sinto neste instante fecundo
Vai se emaranhando, emaranhando
Como a hera no muro
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ah sim, sim, sim…
Meu caminhar retrocedo enquanto o de vocês avança
O arco das alianças penetrou no meu ninho
Com todo seu colorido passeou por minhas veias
E até a dura corrente com que o destino nos ata
É como um diamante valioso que ilumina minha alma serena
O que o sentimento consegue, o saber não conseguiu
Nem o mais claro proceder, nem o mais amplo pensamento
Tudo muda nesse momento, qual mago condescendente
Nos afasta docemente de rancores e violências
Só o amor com sua ciência nos torna tão inocentes
O amor é um turbilhão de pureza original
Até um feroz animal sussurra seu doce gorjeio
Detém os peregrinos, libera os prisioneiros
O amor com seus esmeros, transforma o velho em criança
E ao mal, só o carinho o transforma em puro e sincero
Aos poucos a janela se abriu como por encanto
Entrou o amor com seu manto como uma manhã quente
Ao som de sua bela Diana fez brotar o jazmín
Voando como um serafim, colocou alas no céu
E o querubim converteu os meus anos, em 17.
Como pájaros en el aire
Las manos de mi madre son como pájaros en el aire
As mãos de minha mãe são como pássaros no ar
historias de cocina entre sus alas heridas de hambre.
Histórias de cozinha entre suas asas feridas de fome.
Las manos de mi madre saben que ocurre por las mañanas
As mãos de minha mãe sabem o que ocorre pelas manhãs
cuando amasa la vida hornos de barro pan de esperanza.
quando amassa a vida, fornos de barro, pão de esperança.
Las manos de mi madre llegan al patio desde temprano
As mãos da minha mãe chegam ao pátio desde cedo
todo se vuelve fiesta cuando ellas vuelan
tudo se transforma em festa quando elas voam
junto a otros pájaros, junto a los pájaros que aman la vida
junto a outros pássaros, junto aos pássaros que amam a vida
y la construyen con el trabajo, arde la leña, harina y barro
e a constróem com trabalho, arde a lenha, farinha e barro
lo cotidiano se vuelve mágico.
o cotidiano vira mágico.
Las manos de mi madre me representan un cielo abierto
As mãos de minha mãe representam um céu aberto
y un recuerdo añorado
e uma lembrança saudosa
trapos calientes en los inviernos.
roupas quentes nos invernos
Ellas se brindan cálidas, nobles, sinceras, limpias de todo
Elas se oferecem cálidas, nobres, sinceras, limpas de tudo
¿cómo serán las manos del que las mueve gracias al odio?
Como serão as mãos dos que as movem graças ao ódio?
Tradução: Liz Bittar
por Liz Bittar em 05.10.2009
Conteúdo liberado, desde que mencionadas a autora e a fonte (www.lizbittar.com.br/blog)
Publique os textos na íntegra – Respeite os direitos autorais!
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Hoje perdemos outra grande artista, outro pedaço de Humanidade foi embora. Hoje a Alma de America nos deixou um pouco mais sozinhos, mais órfãos, mais áridos
Mercedes Sosa morreu e com ela os sonhos que habitamos as esperanças que acreditamos, as liberdades que arriscamos. Uma época se fecha e outro ícone de ideais irrecuperáveis desaparece.
http://www.youtube.com/watch?v=QYNx1D74mtQ
Liz obrigado por trazer esta memoria. Faz tempo que sou seguidor do seu trabalho especialmente no Via6
Sou Espanhol e moro em São Paulo, estas reflexoes sobre Mercedes Sosa são um excemplo da sua sensibilidade e da sua extraordinaria visão global, Grato.
recomiendo la Zamba para no Morir
Romperá la tarde mi voz hasta el eco de ayer
voy quedándome solo al final, muerto de sed, harto de andar,
pero sigo creciendo en el sol vivo.
Era un tiempo viejo la flor la madera frutal,
luego el hacha se puso a golpear, verse caer, solo rodar,
pero el á…rbol reverdecerá nuevo.
Al quemarse en el cielo la luz del día, me voy,
con el cuero asombrado me iré, ronco al gritar que volveré.
repartido en el aire a cantar, siempre.
Mi razón no pide piedad, se dispone a partir
no me asusta la muerte ritual, sólo dormir, verme borrar,
una historia me recordará vivo.
Veo el campo, el fruto, la miel y estas ganas de amar
no me puede el olvido vencer, hoy como ayer, siempre llegar,
en el hijo se puede volver nuevo.
Al quemarse en el cielo la luz del día, me voy
con el cuero asombrado me iré, ronco al gritar que volveré.
repartido en el aire a cantar, siempre
Muda de Plano Mercedes Sosa…
Cabe-nos continuar trilhando pelo caminho que trilhava, continuar cantando suas canções, acreditando e pregando os seus/nossos sonhos… Enquanto viver um seguidor de Mercedes Sosa, ela continuará viva!!!
Parabéns Liz, pela inicitaiva!
Um abraço,
Graça
Prezado Joaquin,
A letra é tão bonita (assim como as outras de Hamlet Lima Quintana), que vale a pena traduzir:
Samba Para Não Morrer
Minha voz romperá a tarde até o eco de ontem
Vou ficando sozinho no final, morto de sede, cansado de andar
Mas sigo crescendo no sol vivo
Era um tempo velho, a flor, a madeira frutífera,
E então o machado começou a dar golpes, e se viu cair, apenas rodar
Mas a árvore frutificará de novo
Ao se queimar no céu a luz do dia, eu vou embora
Com o corpo assombrado eu irei, rouco de gritar que voltarei
Repartido no ar a cantar, sempre
A minha consciência não pede piedade, se dispõe a partir
Não me assusta a morte ritual, só dormir, me ver apagar
Uma história vai me relembrar vivo
Vejo o campo, o fruto, o mel e esta vontade de amar
O esquecimento não pode me vender, hoje como ontem, sempre chegar
No filho se pode voltar de novo
Ao se queimar no céu a luz do dia eu vou embora
Com o corpo assombrado eu irei, rouco de gritar que voltarei
Repartido no ar a cantar, sempre
Tradução: Liz Bittar
Abraço,
Liz
Em tempo: O link postado pelo Joaquin é uma gravação de “Volver a los 17″ com Mercedes Soza, Chico, Caetano, Gal e Miltom Nascimento – uma grata lembrança do tempo em que víamos esses artistas reunidos. Hoje, eles andam sumidos…
Como é bom rememorar, estou inserindo o vídeo aqui – e aproveito pra mandar um abraço pra Graça (acima) – faz tempo que a gente não se fala…