MEA CULPA

out 5th, 2009 | By | Category: Reflexões

rio2016_biggerConfesso: fiquei empolgadíssima com as Olimpíadas no Brasil! Comemorei, postei um orgulhoso “Yes, we can!” no meu perfil virtual, mandei emails festejando para as comunidades online que freqüento… e fui execrada! Literalmente enxovalhada numa enxurrada de emails que me demonstraram, por A mais B, a minha total falta de consciência política. Me senti como os entusiastas do Fome Zero: “me engana que eu gosto”.

O aparente ufanismo não era nada mais do que empolgação de mãe de um pré-adolescente, que terá a oportunidade não só de acompanhar as Olimpíadas, mas  – quem sabe – de preparar-se para ela. Depois de sexta-feira, se o Rio ganhou “cidadania internacional”, os jovens que praticam esporte com certa regularidade ganharam muito mais: ganharam esperança!  Agora eles sentem que podem alimentar o sonho de participar de uma Olimpíada – quer motivação maior do que esta? (Sei que não é tão simples assim, mas a moçada está empolgada do mesmo jeito, se não como atletas, pelo menos como voluntários, pertinho dos atletas…)

Sem falar no incentivo ao esporte que, espera-se, será intensificado a partir da escolha do Rio, e nas melhorias para a cidade, sem dúvida nenhuma. Os economistas falam do impacto econômico da realização das Olimpíadas na cidade: veja, como exemplo, reportagem de Miriam Leitão e estudo do IPEA.

Mas quando o assunto é dinheiro, a coisa complica:  Nos emails que recebi, os politicamente conscientes falaram do desperdício de dinheiro público, das outras prioridades além de sediar as onerosas Olimpíadas, e da falta de ética de nossos governantes (o termo “roubalheira” foi usado um considerável número de vezes).

Em um dos emails, foi feita referência a um texto atribuído a Celso Negrão, que chama a atenção para quanto cada brasileiro deverá desembolsar para bancar o evento (segundo ele, R$ 300,00; como a população economicamente ativa é de cerca de 80 milhões de pessoas, a dívida fica em R$ 812,50). E conclui dizendo: “Fora Olimpíadas, nós não precisamos disto aqui, pois segundo o que o Lula declarou hoje o grande legado para nós é a auto-estima. Eu creio que a nossa auto-estima melhorará quando os políticos corruptos estiverem presos. Olimpíadas, estou fora!”

Pois eu tô dentro. Pode me incluir nessa, estou dentro e feliz da vida. Sem ufanismo, e principalmente, sem Lulismo. Concordo com o Celso no que diz respeito à afirmação do nosso empolgadíssimo presidente, que agora diz que vai transformar as favelas do Rio em bairros. Alguém acredita? Pois acredita, acredita, sim!

O Lula ainda criticou quem diz que haverá corrupção nos gastos com as Olimpíadas. Diz que os gastos olímpicos serão rigorosamente fiscalizados. Alguém acredita? E não é que acredita?!

E, mais inspirado do que nunca, nos brindou com um verdadeiro show na coletiva após o anúncio do COI. Afirmou, dentre outras pérolas, que Obama foi à Dinamarca atendendo a um convite dele…  E alguém acredita? Acredita! Muita gente acredita… Mas, como é que pode?

Quem melhor explica isso é Mario Persona, na crônica É Mito ou Minto, publicada em 2005. Eram outros tempos, os escândalos eram outros, mas Lula continua o mesmo – em algumas ocasiões, aliás, Lula é até mais “Lula” do que de costume. Vale a pena ler esta crônica, mesmo sabendo que Mario Persona detesta Olimpíadas.

E enquanto isso, em meio às muitas opiniões e debates contra e a favor das Olimpíadas, eu já estou pensando em comprar a camiseta oficial do Rio 2016 para desfilar no Ibirapuera, e acompanhar o filhão nos treinos – nunca se sabe…

por Liz Bittar em 05.10.2009
Conteúdo liberado, desde que mencionadas a autora e a fonte (www.lizbittar.com.br/blog)
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3 Comentários
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  1. Oi Liz, gostei do que vc escreveu. sabemos que as coisas não vão melhorar do dia para a noite aqui no Rio após anos de desmandos do casal Garotinho que brigava com o prefeito e o presidente. O dinheiro nunca vinha e quando vinha, eles embolsavam e por isso garotinho tornou-se inelegível apesar de ter recorrido e ganho. O larápio quer candidatar-se outra vez, nestas próximas eleições e sangue de Cristo tem poder o suficiente para que aquele evangélico, seguidor do bom ladrão, não consiga votos. Mas o fato é que agora teremos os jogos olímpicos e isso dá uma certa esperança de que as coisas mudem aos poucos para melhor. No meu blog, eu disse que aqui no Rio, não podemos abrir mão de nenhuma melhora, qualquer que seja. Pois bem, sem jogos olímpicos, essa ainda que ínfima melhora seria mais lenta ainda.O Eduardo Paes está surpreendendo e fazendo coisas boas e duas favelas do Rio estão limpas: Dona Marta (em Botafogo) e Cidade de Deus (em jacarepaguá, quase Barra). Não tem mesmo mais traficantes lá apesar de ter morrido gente pacas. Para aqueles que acham que só se gastará dinheiro, isso não é verdade. Obras desse porte são vistas por todas as classes e todas as lideranças e autoridades. Não se pode enganar tantos por tanto tempo e o Pan 2007 está aí para provar isso.
    Sobre a roubalheira, todos os países têm, mas o que nos falta é justiça que coiba essa prática já instituída na América do Sul. Coisa antiga. Se houvesse reforma judiciária, senhores como Garotinho e sua malta já estariam vendo o sol quadrado faz tempo. Os outros países têm justiça séria, que prende políticos, ladrões federais e polpuda conta bancária e aqui não. Essa é a diferença. Enfim, o Rio pode, o Brasil pode e a América do Sul agradece. Fique feliz , sim. Eu estou.

  2. Seja bem vinda, Norma – Quanto tempo…
    Aproveitei seu comentário e passei lá nas Noites Insones. Adorei a seção Vitrolinha, mas o melhor mesmo foi o Pai Arnapio (qualquer semelhança com a palavra “larápio” é mera coincidência…
    Quem quiser dar uma boa risada, visite http://909noitesinsones.wordpress.com/
    Concordo com o que vc disse acima. Vejo que você é fã do Garotinho….
    Beijos,
    Liz
    (as pinturas do Facebook são suas? São lindas…)

  3. Liz
    Uma vez mais você demonstra a sua paixão, a sua capacidade de abraçar uma idéia, e defende-la, são pessoas como você as que fazem as coisas acontecer e comemoram a vida como um acontecimento que merece a pena ser vivido
    Obrigado por acreditar

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